Parecer técnico sobre a “Puxada de Cavalos”

São Paulo, 19 de novembro de 2012 – Irvenia L. S. Prada

I. Análise técnica da realização da prova – A “puxada” é uma competição que envolve uma parelha de cavalos que são obrigados a arrastar, por percurso de comprimento variável em uma pista improvisada de lama, uma carroça sem rodas, conhecida como “zorra”, sobre a qual se colocam sacos de areia, pedras, madeiras e até sacos de cimento,que no total somam o peso de 1.000 a 2.500 kg (uma tonelada a duas toneladas e meia).
A puxada de cavalos ocorre em Pomerode – SC, há aproximadamente 15 anos – segundo a prefeitura e os organizadores – e acontece também em outros municípios de Santa Catarina, tais sejam Benedito Novo, Rodeio, Doutor Pedrinho, Dona Emma, José Boiteux e Massaranduba.
II. O Modelo Cultural de Subjugação dos Animais –  Historicamente o ser humano tem visto osanimais como “coisas” disponíveis e descartáveis. Por influência religiosa, René Descartes, o expressivo filósofo da chamada “Revolução Científica” do século XVII, teria considerado que “sensibilidade sendo atributo da alma (humana), aos animais caberia apenas a condição de máquinas automatizadas, sem nenhuma sensibilidade e, em consequência, sem a menor possibilidade da vivência de dor ou sofrimento”. É também atribuída a Descartes a consideração de que “uivos, lamentos e gemidos emitidos pelos animais nunca deveriam ser interpretados como sinais de sofrimento, mas apenas como automatismos da ‘máquina’, à semelhança de como se produzem os ruídos de uma roda de carroça em movimento.”
Essa visão do ser humano em relação aos animais “caiu como uma luva” em suas pretensões egoísticas, valendo-se deles de forma abusiva em seu benefício. Caracterizou-se, assim, o chamado“Paradigma Antropocêntrico” (antropos, do grego = ser humano), forma de pensamento e de conduta que prioriza o bem-estar apenas do ser humano, recomendando-se ainda a exploração e domínio total da natureza em favor próprio.
As práticas que até hoje se perpetuam nos deprimentes e inaceitáveis espetáculos de diversão humana ainda se acham profundamente arraigadas nesse anacrônico paradigma, sendo importante o entendimento de que cada uma delas não representa um fato isolado; pelo contrário, todas fazem parte do mesmo mosaico. A indiferença pelo sofrimento dos animais permeia todas essas atividades, permitindo abusos, maus-tratos e crueldade, sem que as pessoas se deem conta disso.
III. Possibilidades de ocorrência de lesões corporais e afecções nos cavalos submetidos à prova da “puxada” – Os equinos são animais que apresentam uma arquitetura muito especial em seu físico, conforme se pode verificar em diversas publicações, a exemplo do clássico tratado acadêmico “Anatomia dos Animais Domésticos”, 1981, de Robert Getty, capítulos 5, e de 15 a 25.
– Anatomia de seus membros – No processo evolutivo dos equinos foi valorizado o alongamento de suas pernas, pelo fato de viverem primitivamente em ambientes amplos, nos quais ficavam totalmente expostos à ação de seus predadores (de modo geral, grandes felinos). O apoio de cada um dos membros aos poucos foi se reduzindo para um só dedo, o terceiro (o dedo do meio), mostrando-se ainda, nos cavalos atuais, resquícios anatômicos do segundo e do quarto dedos que, entretanto, não tocam o solo durante o apoio. Assim, o casco dos cavalos representa nada mais nada menos do que a unha (modificada) do terceiro dedo. Portanto, é admirável que um animal que pesa entre 300 e 500 kg (dependendo da raça), consiga se apoiar, qual um bailarino, na ponta de um dedo apenas, em cada um dos membros. Essa característica, que por um lado confere elegância à marcha, de outra parte traz consigo uma grande fragilidade anatômica e funcional.
Esta é a razão pela qual grande parte das afecções ortopédicas dos cavalos se concentra na extremidade distal de seus membros (a extremidade de apoio).   Assim, pelas razões expostas,é grande a possibilidade de ocorrência de lesões ósseas, articulares, ligamentares e tendíneas em cavalos submetidos a grandes esforços, sejam os de corrida, de salto ou de tração, categoria esta última da qual fazem parte os que são submetidos às provas de “puxada”.
– A anatomia de sua coluna vertebral – A coluna vertebral acha-se constituída por uma série de ossos curtos, as vértebras, que nos equinos dispõem-se da seguinte maneira (“Anatomia dos Animais Domésticos”, 1981, de Robert Getty, cap. 15): 7 cervicais, 18 torácicas, 6 lombares, 5 sacrais e de 15 a 21 coccígeas ou caudais. Duas dessas regiões mostram fragilidade anatômica e funcional, tais sejam as regiões cervical e lombar. A região cervical mostra arquitetura em arco, no qual se identificam dois segmentos que são os mais sujeitos às forças que incidem sobre o pescoço e, consequentemente, onde as lesões traumáticas se instalam com mais facilidade. Um dos segmentos correspondente à metade do comprimento do pescoço, comprometendo a 3a. e  a 4a. vértebras cervicais, sendo este o local  de maior curvatura (de concavidade ventral) do arco. O outro segmento abrange da 5a. à 7a. vértebras cervicais, local onde a curvatura do arco se inverte (concavidade dorsal) para se continuar com a porção torácica da coluna vertebral.
Em grandes animais (cavalos, bovinos e também cães de raças avantajadas), este último local costuma ser sede de uma afecção acompanhada de muita dor (“Síndrome de Wobbler”), pois esta é a região de emergência do plexo braquial, conjunto de nervos calibrosos que se destinam à inervação da região e dos membros torácicos. Geralmente se trata de uma subluxação das ultimas vértebras cervicais, produzida por traumatismo violento ou esforço físico excessivo a que são submetidos animais, particularmente os que ainda se acham em crescimento.
A região lombar também se apresenta anatomicamente frágil pelo fato de constituir-se em elemento de ligação entre as regiões torácica (conectada às costelas) e sacral (conectada aos ossos do quadril), sem ter, como as outras duas, elementos ósseos de sustentação em seu entorno.
– Sobre a possibilidade de ocorrência da rabdomiólise – Uma outra preocupação vem à tona no caso das “puxadas”, pois sabe-se que o  esforço físico exagerado pode levar a um quadro de exaustão muscular conhecido tecnicamente como rabdomiólise, mioglobinúria ou azotúria (“Rabdomiólise em Equinos” – Santos, D.E. ; Paula, F.C. ; Avanza, M.F.B. – REVISTA CIENTÍFICA ELETRÔNICA DE MEDICINA VETERINÁRIA – ISSN: 1679-7353, Ano VII – Número 12 – Janeiro de 2009). A rabdomiólise é também conhecida como “doença da segunda-feira”, pois se trata de uma enfermidade que acomete principalmente equídeos que em determinadas ocasiões (como apenas em finais de semana) são submetidos a esforço físico além de sua capacidade, ou seja, além da solicitação do esforço dos dias anteriores, sendo que a situação se complica quando são alimentados com dietas ricas em concentrados.
Como consequência do esforço físico exagerado ocorre um acúmulo de ácido lático na musculatura, causando os seguintes sintomas: dor, rigidez muscular, dificuldade de locomoção e tremores musculares, sintomas estes aos quais se soma o surgimento de urina escura. O quadro progredindo, o animal pode até chegar ao decúbito, adotando primeiramente posição de cão sentado. Segundo o artigo citado, cavalos afetados mais gravemente pela rabdomiólise terão recidivas mesmo após exercícios leves.
Com foco em sua fisiopatogenia (características de como a enfermidade se processa), a rabdomiólisese caracteriza por uma lise do tecido muscular, ou seja, por uma destruição da estrutura muscular, o que resulta metabolicamente em insuficiência renal e sofrimento orgânico, que podem culminar com a morte. Há também, nestes casos, sobrecarga das funções cardiovascular e respiratória, com elevação da pressão arterial, alem de sofrimento mental, o que ocorre pela situação de subjugação a que o animal se acha submetido.
IV. O estresse dos animais submetidos às provas de “puxada” – É preocupante a ocorrência de episódios de dor/sofrimento nos animais submetidos a competições, não apenas pela possibilidade de acontecerem lesões corporais, mas também pelos danos psicológicos resultantes. Mesmo que não sejam detectadas lesões (o que não significa que elas não existam), não se pode afirmar que o animal não sofra, pois o simples fato de estar sendo subjugado e obrigado a esforço exaustivo, por si só representa fator determinante de sofrimento físico e mental. A presença ou ausência de lesão física não é tudo. Aliás, é necessário se entender que nem sempre a ausência de lesão aparente significa ausência de sofrimento. A exemplo, uma pessoa pode receber um tapa no rosto e não apresentar nenhuma lesão indicativa do fato. Isso confirma o enunciado metodológico de que “a ausência de evidência não significa evidência de ausência”.
V. Os animais são Seres Sencientes – Apesar dos avanços científicos, desde a década de 50, no entendimento da verdadeira natureza dos animais, e particularmente da Etologia (estudo do comportamento), o ser humano ainda faz vistas grossas às evidências incontestáveis de que os animais não são simples “máquinas cartesianas”, mas são seres sencientes (do latim senties = que sente, que tem sensibilidade e inteligência). Para informações mais detalhadas, pode-se consultar o capítulo “Os Animais são Seres Sencientes”, de minha autoria, constante do livro “Instrumento Animal. O uso prejudicial de animais no ensino superior”, organizado por Thales Tréz e patrocinado pela interNICHE  – www.interniche.org (Bauru, SP: Canal 6, 2008).
Entre os inúmeros estudiosos do assunto, basta nos lembrarmos do cientista contemporâneoRupert Sheldrake, respeitado pesquisador da Universidade de Cambridge, criador da teoria dos “campos mórficos” (campo mórfico = matriz eletromagnética do corpo físico) e também da tese de que os animais se comunicam telepaticamente com os seres humanos. Igualmente, vale a citação de Donald R. Griffin, biólogo da Harvard University. Griffin é autor da expressiva obra “Animal Minds” (1994), dedicada ao estudo da mente e da expressão da consciência nos animais. Nesse enfoque, tornou-se pioneiro no campo da Etologia Cognitiva – termo que cunhou em seu livro “The Question of Animal Awareness” (A Questão da Consciência Animal), publicado em 1976 – vertente da ciência-mãe (Etologia), que hoje discute sem preconceitos essas questões.
Em 1989, na condição de docente da Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de São Paulo, publiquei na Revista de Educação Continuada dessa instituição artigo com o título “Os Animais têm Alma?” (alma como mente, psiquismo), justamente mostrando as evidências incontestáveis de que, como os seres humanos, os animais também são possuidores dessa dimensão chamada de mente ou psiquismo. Nesse artigo, que serviu de base ao meu livro “A Alma dos Animais” (1997), estabeleço a assertiva de que as diferenças de estruturação entre o cérebro humano e o dos animais, são de natureza quantitativa e não qualitativa, assertiva esta que sustenta a seguinte conclusão – “se o cérebro humano pode ser visto como instrumento de manifestação da mente, no ser humano, o mesmo conceito pode ser estendido aos animais, ou seja, o cérebro dos animais pode ser visto como instrumento de manifestação de seu  psiquismo, segundo as características de cada espécie”.
– O manifesto de Cambridge – A postura cartesiana mecanicista, segundo a qual os animais são apenas “máquinas” automatizadas, sem sensibilidade alguma, ou seja, são “coisas” utilizáveis e descartáveis, sofreu recentemente o ”golpe fatal” que a derruba por terra, definitivamente.
Em meados deste ano, durante a realização da Francis Crick Memorial Conference, na Cambridge University, no Reino Unido, 26 neurocientistas de diversos países, liderados pelo Dr. Philip Low, pesquisador da Stanford  University  e  do  Massachusetts  Institute  of Technology, EUA, emitiram oficialmente uma declaração, em  7 de julho de 2012 – The  Cambridge  Declaration  on  Consciousness in Human and Non-Human Animals” (Declaração sobre a Consciência em Animais Humanos e Não-Humanos).
Entre esses 26 neurocientistas encontram-se neurocientistas cognitivos, neurofarmacologistas, neurofisiologistas, neuroanatomistas e neurocientistas da computação, entendendo que as estruturas cerebrais relacionadas à expressão da  consciência em seres humanos também existem nos animais. De seu manifesto, consta a expressão: “Não é mais possível dizer que não sabíamos” (que os animais têm consciência).
Da mesma maneira, não podemos mais negar ou fazer de conta que não existe o conhecimento por demais explícito de que os animais sofrem, têm sensações, têm memória, fazem associação de ideias, ou seja, têm um psiquismo rico, que merece e precisa ser respeitado.

Aliás, já dizia Carlos Brandt (in LEVAI, T.B. – Vítimas da Ciência. Limites Éticos da Experimentação Animal. Campos de Jordão, SP – Editora Mantiqueira, 2001, p 67), que “o processo evolutivo do homem anda atrasado porque não há luz em seu cérebro nem música em seu coração que lhe permita seguir um facho luminoso chamado compaixão”.
VI. A questão do Bem-Estar Animal – É consenso entre as entidades protetoras de animais, quea avaliação de bem-estar animal deve considerar o atendimento às necessidades físicas (espaço e alimentação, entre outras), mentais (estimulação ambiental e social) e naturais (expressão do comportamento natural) de cada espécie.
Também hoje é bem conhecido o “Princípio das 5 Liberdades”, exarado pela Farm Animal Welfare Council (FAWC), entidade do Reino Unido. Ele reúne premissas que devem ser atendidas em relação ao bem-estar animal para qualquer espécie, recomendando-se que em toda e qualquer situação os animais devem estar livres: 1 – de fome e sede; 2 – de desconforto; 3 –  de dor, lesões e doenças; 4 – de medo e estresse; 5 – para expressar seu comportamento natural.
Não é difícil de concluir que a situação dos cavalos submetidos às provas de “puxada” afronta a maior parte, se não a totalidade dos itens do  “Princípio das 5 Liberdades”.
VII. Lida com os animais em atividades no campo é uma coisa, provas competitivas são outra coisa – As práticas que envolvem a participação de animais no campo são muito diferentes daquelas implicadas em disputas. É aceitável que os animais participem dos trabalhos a que o ser humano se proponha, contanto que haja respeito pelas suas condições de bem-estar e de vivência harmônica, respeitando-se seus limites de força e de necessidade de repouso.
Outra coisa, entretanto, é submeter e subjugar animais a condições “desumanas” de trabalho forçado e ainda mais, de diversão à custa de seu sofrimento.  Isso é absolutamente inaceitável, pois não satisfaz mais os ideais de seres humanos que querem transcender para a vivência de patamares éticos mais elevados de dignidade pessoal e coletiva, a que todos estamos destinados.
Portanto, é simplista demais qualquer comparação que se queira estabelecer entre o que acontece no dia a dia das lidas no campo, com o volume de exigência, de subjugação e de exploração dos cavalos submetidos às provas de “puxada”.
VIII. Os argumentos “tradição” e “cultura” – As pessoas ligadas a práticas que envolvem abusos e maus-tratos para com os animais, como é o caso de rodeio, vaquejada, tourada, farra do boi, “puxada” e outras tantas, costumam dizer que esses eventos representam tradição e cultura, pretendendo com isso justificar-lhes a ocorrência.
Acontece que existem tradições (boas) e tradições (más) e culturas (boas) e culturas (más)… Por exemplo, há pouco mais de cem anos, a escravatura de negros era prática tradicional e cultural de alguns países, inclusive do Brasil. Até os dias de hoje a mutilação genital de meninas ainda se caracteriza como prática tradicional e cultural, em determinadas sociedades, sendo que qualquer consciência desperta que se preze não tem como admitir que sejam práticas válidas, simplesmente por se basearem em “tradição e cultura”!    Portanto, é hora de se discernir o joio do trigo…
IX. A Questão social – É lamentável que a população do maravilhoso Estado de Santa Catarina permita que uma minoria de consciência adormecida persista na prática inaceitável de utilização de animais de maneira cruel e desumana, em deprimentes espetáculos chamados de diversão, como a “farra do boi” e também as “puxadas”.
O ser humano, de inteligência tão pródiga na aquisição de tantas conquistas científicas e tecnológicas, já teria condições de recorrer à vivência de harmonia com os animais e outros elementos da natureza, o que certamente lhe dignificaria a personalidade. Sabendo também que o silêncio dos bons representa sempre fator de engrandecimento das ações dos irresponsáveis, faço votos de que a população catarinense se insurja contra essa prática absolutamente inaceitável por todos os padrões de ética que se possam imaginar.
X. Implicações Éticas. Temos o direito de dispor dos animais? – O conhecimento atual de que os animais são seres sencientes implica profundas reflexões de natureza ética. O cientista Donald R. Griffin, já citado, assim se expressa em relação ao assunto: “Em termos científicos… nossa antiga premissa de que os animais não têm consciência  está se tornando cada vez mais questionável. Além do mais, há implicações morais e éticas nesse conhecimento”.
Em verdade, nem seria necessária tanta pesquisa e tanto conhecimento para se reconhecer os atributos psíquicos e cognitivos dos animais, conforme postulou, há muito tempo, o filósofo inglês Jeremy Bentam (1748 – 1832), ao considerar: “Não devemos perguntar se os animais  são capazes de raciocinar ou de se comunicar,  mas apenas se são capazes de sofrer!”
Por que os seres humanos, particularmente os do gênero masculino, têm tanta dificuldade em admitir que possam sentir compaixão pelo sofrimento dos animais?
É promissora a constatação de que “as coisas estão mudando”. Quem diria que a caça à raposa, evento esportivo “tradicional” da Inglaterra, desde 1660, um dia seria proibida? Pois é! A caça à raposa está legalmente proibida na Inglaterra, desde 2005.
E quem diria que um dia seriam proibidas as touradas, na Espanha? Ainda não em toda a Espanha, mas na região da Catalunha foi decidido, em 28/07/10, o fim das touradas  a partir de 2012, o que felizmente  aconteceu.
Estes fatos mostram que o processo de abertura da consciência humana é irreversível, de tal forma que acabar com essas práticas abusivas em relação aos animais irá acontecer com a boa vontade de alguns e apesar da má vontade de muitos.
XI. A questão legal e ética do exercício profissional do Médico Veterinário – Nós, médicos veterinários, temos grande responsabilidade  para com o bem-estar dos animais, compromisso que se encontra muito bem fundamentado na Resolução  nº 722, de agosto de 2002, exarada pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, que aprova o Código de Ética do Médico Veterinário. Em seu capítulo IV – Comportamento do Medico Veterinário, lemos, no artigo 13 – É vedado ao médico veterinário: Inciso 21 – “praticar ou permitir que se pratiquem atos de crueldade para com os animais nas atividades de produção, de pesquisa, esportivas, culturais e artísticas, ou de qualquer outra natureza”.
Desta maneira, face ao que posso perceber das provas de “puxada” de cavalos, sinto-me no dever não apenas pessoal, mas também profissional de me posicionar contra essa prática da “puxada”, por caracterizar-se como ato abusivo de crueldade, de exploração e de subjugação dos animais, impondo-lhes sofrimento.
 
XII. Conclusões e Parecer Final
 
Considerando que:
      – nas provas de “puxada” os cavalos são submetidos a esforço exagerado, pois é aumentado, pelo atrito, o peso “teórico” de até 2.500 kg que suportam ao arrastar, por uma pista enlameada, uma carroça sem rodas;
      – as práticas que até hoje se perpetuam nos deprimentes e inaceitáveis espetáculos de diversão humana, entre os quais se incluem as provas de “puxada”, ainda se acham profundamente arraigadas no anacrônico paradigma antropocêntrico que objetiva apenas o bem-estar do ser humano, servindo-se abusivamente da natureza em seu próprio benefício;
      – o esforço físico exagerado imposto aos animais causa-lhes exaustão orgânica, fadiga extrema e intensa dor no corpo por lise do tecido muscular (desintegração das fibras musculares), sobrecarga das funções cardíaca e respiratória e exagerada produção de ácido lático, o que pode determinar quadro de insuficiência renal com variáveis graus de comprometimento de sua saúde (rabdomiólise);
     – existe grande possibilidade de ocorrência de lesões orgânicas e de estresse psicológico nos animais submetidos às provas de “puxada”, que não se justificam por motivações humanas eticamente aceitáveis;
 – existem evidências inquestionáveis de que os equinos, como todos os animais, são seres sencientes, não se podendo mais negar ou fazer de conta que não existe o conhecimento por demais explícito de que eles sofrem, têm sensações, têm memória, fazem associação de ideias, ou seja, têm um psiquismo rico, que merece e precisa ser respeitado;
 – a situação dos cavalos submetidos às provas de “puxada” afronta a maior parte, se não a totalidade dos  itens  do  “Princípio das 5 Liberdades”,  segundo o qual  em toda e qualquer situação os animais devem estar livres: 1 – de fome e sede; 2 – de desconforto; 3 –  de dor, lesões e doenças; 4 – de medo e estresse; 5 – para expressar seu comportamento natural;
       – é simplista demais qualquer comparação que se queira estabelecer entre o que acontece no dia a dia das lidas no campo, com o volume de exigência, de subjugação e de exploração dos cavalos submetidos às provas de “puxada”;
      – não são válidos os argumentos de “tradição” e “cultura” utilizados pelas pessoas ligadas a práticas que envolvem abusos e maus-tratos para com os animais, uma vez que esses termos “tradição” e “cultura”  podem também se mostrar associados a situações profundamente negativas;
      – é lamentável que a população do maravilhoso Estado de Santa Catarina permita que uma minoria de consciência adormecida persista na prática inaceitável de utilização de animais de maneira cruel e desumana, em deprimentes espetáculos chamados de diversão, como a “farra do boi” e as “puxadas”;
      – não é mais válida a antiga premissa de que os animais não têm mente nem consciência, nem sensibilidade, haja vista recentes publicações de cientistas, como é o caso do “Manifesto de Cambridge” (07/07/12) em que 26 neurocientistas de todo o mundo declararam  sua convicção quanto à existência de consciência nos animais, do que resultam sérias implicações éticas para o comportamento humano;
      – o Código de Ética do Médico Veterinário veda ao profissional praticar ou permitir que se pratiquem atos de crueldade para com os animais, inclusive em práticas esportivas;
     – o paradigma cultural de subjugação e exploração da natureza, nela incluindo os animais, é anacrônico e ultrapassado, não sendo mais admissíveis situações em que alguém se divirta à custa do sofrimento alheio, muito menos sob a motivação de ganho econômico, de aplausos e de medalhas e troféus;
      – está implícita, no psiquismo do ser humano, a busca de sua transcendência para o alcance de patamares éticos cada vez mais elevados de dignidade pessoal e coletiva,
É MEU PARECER FINAL totalmente contrário à realização das provas de “puxada” de cavalos, sendo recomendável a sua proibição imediata.
São Paulo, 19 de novembro de 2012.
IRVENIA  LUIZA  DE SANTIS  PRADA
–  Médica Veterinária – CRMV – SP – no. 0525
– Professora Titular (aposentada) em Anatomia, com área de domínio em Neuroanatomia Funcional – FMVZ – USP
– Professora Emérita – FMVZ – USP
– Membro da Academia Paulista de Medicina Veterinária (cadeira nº 21)
– Idealizadora e coordenadora do MEDVESP – Movimento Cultural de Medicina

Veterinária e Espiritualidade,  desde 2010, com sede na FMVZ – USP.

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